segunda-feira, 13 de julho de 2015

MUITA FALTA DE POUCA VERGONHA



                                                                                                

                                                        Valmir Pontes Filho*
                                                             
                   Às vezes me sinto alguém a navegar à deriva por mar bravio, que não tem cabelos onde eu me possa agarrar (apud Paulinho da Viola). Ou, pior ainda, ainda em vida terrena, a experimentar a agruras do umbral, que muitos conhecem pelo equivocado apelido de “inferno”. Digo isto por muitos motivos, que vão do extravagante gosto musical de hoje em dia (nós, antigos, somos incorrigíveis, risos) à uátisape-dependência a que todos estamos desgraçadamente sujeitos. Eu não sei mais, por exemplo, dormir nem acordar sem dar uma olhada nas mensagens recebidas no meu smartphone (“telefone inteligente”, para quem não é afeito à “língua universal”), igual a quando eu fumava (cigarros, é bom esclarecer, há bem mais de dez anos).
                   Mas duas outras razões me deixam atônito. De um lado, enxergo duas nobres profissões serem vilipendiadas, execradas mesmo (basta ouvir os sábios motoristas de táxi com quem conversamos), por conta da lamentável atuação de alguns magistrados e advogados. Todos eles, quando nominalmente referidos, evidentemente merecem o (constitucionalmente) assegurado direito ao contraditório e à ampla defesa. Nem todos, de certo, são culpados, pois há notória diferença entre o acusado, o indiciado e o condenado (leiam, por favor, o livro “O Renascer do Direito”, de Dalmo Dallari). Conheço situações em que as acusações são brutalmente injustas e descabidas.
                   Mas, noutros casos, diante de provas irrefutáveis, a corrupção é inegável. E se existem corruptos, há corruptores, entre os quais se incluem colegas de profissão (como disse acima sou advogado, com muito orgulho). Estou no final do exercício de um mandato de Conselheiro Federal da OAB, que me foi bondosamente confiado pelos advogados cearenses e, como integrante da Câmara de Ética de Disciplina, já votei, sofridamente, a favor de drásticas condenações a esses infelizes maus praticantes da advocacia. É doloroso isto que a imprensa local noticia (e graças a Deus a liberdade de imprensa é intocável numa democracia), mas, ao mesmo tempo, é paradoxalmente bom, na medida em que vivemos um momento de catarse. Quem for do bem que se afaste quem for do mal! Sempre valeu, vale e valerá a pena a prática da advocacia séria e ética.
                   De outro lado, vislumbro uma titular maior do Governo federal que, quando aspirante à renovação do seu poder de mando, prometeu mundos e fundos. Tudo iria ser uma maravilha, desde que um novo voto de confiança fosse dado ao partido a que pertence (ainda?). Eis, entretanto, que explodem novos escândalos a cada dia, a arrepiar os cabelos de um frade de pedra. Propinas fantásticas pagas aqui e alhures, riquezas patrimoniais estratosféricas criadas da noite para o dia, gente fugindo e sendo presa, enfim, uma loucura total.
                   Tarifas públicas, que deveriam decrescer em valores, foram e são absurdamente aumentadas, a disparar a inflação. Para manter programas sociais (elogiáveis, embora merecedoras de consertos finalísticos), o Governo se vale de um “cheque especial” que não tem nem pode ter (cadê o princípio da estrita legalidade e da moralidade?). Dribla a Lei Orçamentária e a Lei de Responsabilidade Fiscal, mas cai ridiculamente após o lance midiático. A inflação dispara, a recessão se vê escancarada (coitados dos empresários honestos) e a confiança despenca (meu amigo que me corta os parcos cabelos me disse – e achei isto genial – que a situação está tão ruim, que quem quer fazer um “despacho”, usa caldo Knorr).
                   Por fim e ao cabo, vem aquele senhor responsável por isto tudo (e em quem, envergonhadamente, confesso haver votado na primeira de suas candidaturas), a fazer críticas ao governo da Sra. Dilma (a quem respeito, pelo cargo que ocupa e por ser mulher, mas a quem não chamo de PresidentA nem sob tortura). Ele que criou isto tudo e, agora, vem posar de vestal. Só tenho uma coisa a dizer, a título de desabafo: É MUITA FALTA DE POUCA VERGONHA (apud Valmir Pontes, meu pai).
                   Tenho dito.

* O autor é advogado, jurista, professor. Pertence à Academia Cearense de Letras Jurídicas-ACLJur; e ao Instituto dos Advogados do Ceará-IAC.
                  
                  
                  

Nenhum comentário:

Postar um comentário